OS CAMINHOS DA VIDA

Voltou pela terceira vez. Parece agora que em parelha. Um já é mau, mas desta vez vem acompanhado.

Não consigo imaginar o que estejas a sentir. Pergunto-te, para de alguma forma te confortar. Não consegues verbalizar. És vago, mudas de assunto. 

Não queres sentir grande coisa, desconfio. Não te censuro, como é que se gere ter recuperado de dois cancros e agora ter de o voltar a fazer uma terceira vez...?

Eu sei porque é que a Vida te está a colocar isto no caminho. Mas ainda não te consegui dizer. Temo que me aches uma parva, com a mania das espiritualidades, uma sem noção.

Vezes sem conta observei o teu estilo de vida. As prioridades estabelecidas. O tempo dedicado a quem realmente importa. 

Tudo acelerado, tudo trocado, tudo escasso.

A resistência natural que temos em olhar para dentro, para melhor nos percebermos e compreendermos como influenciamos o que está dentro e ao redor de nós, deveria há muito ter sido vencida por ti. A solução está sempre dentro de nós, acredita. Só precisamos de olhar.

Os dois crescemos com pais que fugiram sempre de si próprios. Fugiram de si, fugiram do mundo e perderam-se nos seus fantasmas. Tenho para mim que poucos devem ter sido os momentos em que se sentiram bem consigo e com a Vida.

Tu, meu irmão, herdaste este modo de fazer as coisas. Mas não tens de o honrar. Podes fazer diferente, muito diferente. Olha aqui a tua irmã, que recomeçou quase do zero já algumas vezes e agora, aos 51 anos, prepara-se para o fazer novamente em prol de continuar inteira, plena e em paz.

Tal como as ondas do mar vão escavando caminhos na areia, formando milhares de canais por onde os grãos se agitam e a água circula, também assim é a Vida. As adversidades estarão sempre aí, como a areia. O Amor abre caminhos, como as ondas do mar, para que a verdadeira razão para andarmos por cá - ser e fazer outros felizes - possa circular livremente por todos esses canais, infinitivamente.

Um dia conto-te tudo. Quero ver-te nesse Mar...










NEM IMAGINAS...

... a falta que me fazes, Mãe. 

Bem, que parvoice, não é preciso imaginar. Tu sabes. Lá em cima onde estás tudo vês, tudo ouves, tudo sentes. Sabes que tens 5 netos, embora só tenhas conhecido na vida terrena 3. Sabes das reviravoltas da minha vida e da do meu irmão. Sabes que somos feitos de fibra dura - a Vida tem-nos colocado desafios gigantes, e temos sempre conseguido ultrapassá-los com sucesso. Sabes que penso em ti muitas vezes. Sabes que adoraria ver-te rodeada pelos teus netos, a receber o mimo deles e tu a estragá-los com os teus. Sabes que te diria agora todas as coisas que não te disse quando ainda estavas por cá na terra dos mortais. Sabes que eu sei que me visitas de vez em quando. Tu sabes... 

 À medida que o tempo passa, vou-me perguntando com mais frequência sobre como seria se ainda estivesses aqui. Como estaria a tua pele - será que continuarias a não ter rugas na tua face?; estaria já o teu coração apaziguado em relação aos teus arrependimentos?; que conselhos me darias ao te perguntar como lidar com a perimenopausa?; estarias mais liberta dos teus fantasmas?; sentirias finalmente a Felicidade no seu estado puro...? 

 Não te deixei ficar mal, Mãe. Sou uma mulher forte, mãe atenta, pessoa boa. Sem faltas modéstias, sou um pedaço de ser humano bem decente. Parte de mim deve-o a ti ao Pai. O resto, fiz-me. Transformei-me, moldei-me, adaptei-me, curei-me. 

Consigo visualizar o teu olhar sobre mim. Olhar de orgulho e de paz. Conseguiste, Mãe, conseguiste! Criar um ser humano decente, que está a criar outros seres humanos decentes. Conseguiste. 

 Só não conseguiste estar aqui comigo agora, para te dar todos os abraços que por embaraço e vergonha não te dei. Só não conseguiste estar aqui comigo agora, para te dar todos os beijos que por não saber como, não te dei. Só não conseguiste estar aqui comigo agora, para te dizer o quanto te amo, Mãe - Amo-te! que por receio de me magoar, nunca te disse. 

 Só não conseguiste estar aqui agora, para te dizer... a falta que me fazes, Mãe.

51

Completei esta semana 51 anos. Sem perceber ainda a razão, 51 anos parece-me gigante em significado. Muito mais do que 50. Talvez seja porque quando completei 50 nos, festejei a entrada numa nova década e numa nova era da minha vida e passei a pertencer ao clube das "cinquentonas", nada mais.

Mas saber-me com 51 anos... sinto-me enorme. Poderosa. Feroz. Com todo o caminho pela frente e com a gana toda de o percorrer.

Quando entrei nos 40, senti uma mudança brutal em mim: comecei natural e friamente a seleccionar quem eu permitia que entrasse no meu circulo, e a desapegar-me de quem finalmente tomei consciência que não me fazia bem, ao continuar nele.

A entrada nos 50 foi diferente... melhor. A triagem estava feita. Agora era a hora de iniciar outra selecção: que batalhas consideraria válidas travar e quais as que não; que tretas estaria disposta a continuar a aturar e quais as que, definitivamente, não.

Ao completar os meus 51 anos essa eleição continua, cada vez mais contundente. Ao ponto de iniciar outra revolução na minha vida, o término de uma relação amorosa de quase 7 anos.

Quando comecei a sentir verdadeiramente os efeitos da psico-terapia, por volta dos meus 44 anos, estranhei bastante. Uma vida inteira a viver em estado de alerta permanente, a sentir-me pequena, a ter pensamentos em loop constantes, a prover tudo e todos menos a mim... para depois, devagarinho, se ir instalando uma paz, uma serenidade, um silêncio interior... que eu desconhecia por completo. De repente questionei, mas quem sou eu agora? como lido com este novo estado de espirito? o que faço com estas novas emoções?

Graças à terapia, às minhas pessoas e à minha resiliente vontade de estar bem comigo própria, superei a estranheza. E hoje não questiono, apenas sinto e aceito o meu novo eu.

Sinto-me uma mulher extraordinária. Sou fenomenal. Nem todas as pessoas me aceitam. Muitas ficam amedrontadas. Não quero nem saber. 

O meu circulo hoje é muito pequeno. E adoro isso. Prezo a minha paz, os meus mais que tudo e a vida que tenho. Sinto curiosidade em saber o que ainda por aí vem. Anseio pelas viagens que quero fazer. Sonho com o futuro, na certeza de que me trará muito de bom.

Sempre persegui esta ideia da Felicidade, do Ser Feliz. Como se isso fosse algo material que colocavas na mão e tomavas para ti, como um pacote de bolachas. E agora a minha consciência é clara: Felicidade é estares em paz contigo, é saberes que os teus estão bem, é sentires a Vida a percorrer-te as veias; é chegares a casa depois de uma viagem espetacular e começares a planear a próxima; é ires almoçar com os teus filhos a um restaurante de fast-food no dia do teu aniversário e estares lá mais de 2 horas porque estivestes a conversar, a gargalhar, a jogar cartas... a viver o "aqui e agora".

A Vida não é complicada, de todo. Do alto dos meus 51 anos, percebo-o perfeitamente. Apenas é preciso saber vivê-la.

E é esse o super-poder que quero continuar a treinar, para sempre...

A RECEITAR...

Créditos: Pinterest

Cada vez mais é por aqui. Sair da norma, abandonar o rebanho, contrariar o normalismo. Para evoluir. Para pensar outras ideias. Para segurar a liberdade de Ser.

No caso das mulheres, abandonar o rebanho choca ainda mais: é olhada de lado a que não pinta o cabelo para esconder os cabelos brancos, a que tem muitos filhos, a que tem zero filhos, a que não procura o príncipe encantado.

Este "excesso de lucidez" esconde muitas correntes invisíveis. Que prendem o nosso livre arbítrio, o nosso pensamento, a nossa alma. Somos prisioneiros do social e politicamente correcto. Somos prisioneiros dos corpos ideais, das roupas ideais, do emprego ideal. Nem damos conta da prisão onde nos fizemos reclusos, fechamos as grades e deitamos as chaves fora.

A Vida é tão Imensa, tão Magnifica, tão Abundante, que seria um desperdício vivê-la em escassez.

Portanto, em excesso de lucidez: loucure-se!

19...


O mundo começa a ficar pequeno para ti. Daqui a nada já tens carta de condução e ao virar da esquina, já terminaste o curso superior.

Num abrir e fechar de olhos, completas hoje 19 anos. Sou tua mãe à 19 anos. 

19 anos e 9 meses - desde que te desejei tanto e soube que germinavas no meu ventre, que sou tua mãe.

Penso muitas vezes que finalmente estás no caminho, estás criada e já não preciso de te ter sob a minha asa. Mas outras tantas, sinto exatamente o contrário... que és minha, que ainda é cedo para voares para fora do ninho, que ainda não quero levantar a minha asa para tu saíres. Uma dicotomia complicada de gerir...

Por agora, observo-te. A dar os primeiros passos na vida adulta. A abrir as asas. A estudar o voo. 

E orgulho-me. Muito. Na mulher em que te estás a transformar. Na adulta que já gere a sua vida. 

Mas nunca deixando de ser a menina. Que ainda quer o meu abraço. Que ainda quer estar quentinha, debaixo da minha asa.

Que bom...

Amo-te muito, filha. 

Parabéns...

15...



Não acredito. Clichê tipico. Mas não acredito. Como assim, 15?!? 

Ainda tão menina, mas já está anda no secundário. Ainda tão menina mas já sabe o que quer ser quando for grande. Ainda tão menina, dentro de um corpo de mulher. 

O olhar é doce. O abraço sempre apertado. Os afectos não fogem, Martinha, os afectos não fogem. Com medos. Como o resto do mundo. Mas com coragem, a cuidar para que não a dominem. Sempre com vontade de mais um beijinho, mais um abracinho, mais um miminho. 

Já tão mulher... mas ainda, e sempre, menina. A minha menina...

Parabéns Martinha.

ARRUMAR A CASA


Iniciei o meu processo terapêutico em 2013. Após ficar sozinha em Portugal com 3 filhos, o mais novo com apenas 8 meses, ficou evidente. A minha depressão profunda. A incapacidade de sentir emoção alguma. O desejo nulo de viver.


Esta amiga já partilhava comigo a vida muito antes de 2013. Muito antes de me fazer adulta, muito antes de ter filhos, muito antes de iniciar uma vida profissional. Frequentemente a depressão é desvalorizada por quem dela sofre: é só uma fase, anda-se só mais cansada, é só falta de descanso... As desculpas são variadas e a todas se lhes deita imediatamente a mão. Para não se ver. Para não se olhar. Para não se ter consciência. Do enorme elefante branco à nossa frente...

Foi necessário a rigidez facial e emocional, o pensamento suicida e o supostamente inexplicável cansaço, para eu assumir. De que não estava bem. E de que precisava de ajuda externa.

Desde 2013 até agora, tenho percorrido um caminho maravilhoso de descoberta, de autoconhecimento, de validação pessoal. Passei da luta pela sobrevivência, para a tomada de consciência. E daí para a cura interna. 

Já mudei de psicoterapeutas, fiz pausas, pratiquei auto-sabotagens e fiz da resistência ao processo um estandarte. É difícil a cura. Implica retirar o penso e colocar a ferida à vista. Implica ir lá tocar, remexer e por vezes esventrar. Implica assumir que estamos no lodo. E que fomos nós que nos colocamos lá.

Sento-me todos os meses na cadeira. É-me imprescindível esta consulta mensal. Cada vez dói menos. A tomada de consciência é cada vez mais maior. Mais plena. Mais transformadora.

Tenho para mim que me irei sentar todos os meses na cadeira, por muitos, muitos anos. Pretendo continuar a abrir armários, arrumar gavetas e fechar portas. Para que o meu sótão se torne, pouco a pouco, um lugar de pura leveza, serenidade e paz.

Sem medo, para aí caminho. Que assim seja. Assim será...